Compaixão

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O que seria do homem sem compaixão, sem carinho, o que seria da vida sem algo pra contribuir, pode ser que você nunca irá plantar uma árvore, ter um filho, escrever um livro ou ganhar um Oscar, mas faça da sua compaixão o caminho para as pessoas lembrarem de você. Acordamos dia após dia com as mãos atadas nas costas, às vezes pensando o que podemos fazer para cada hora valer a pena. Em um tempo de desespero e tragédia como esse, valer a pena é ajudar quem mais necessita, é perder um pequeno tempo de sua tarde e ler uma história para uma criança carente, ou ouvir uma história de vida de um senhor de idade que possui tantas experiências para passar, às vezes essa é a única alegria dele, e esse é o livro que ele pode escrever.

Ajudar o próximo é algo extremamente importante, a perpetuação da nossa espécie depende do amor, depende da paixão e compaixão, depende da solidariedade. Pode até ser que dê uma pequena preguiça, mas a maior recompensa é ver o sorriso no rosto de quem você ajuda. Isso leva a muitas lágrimas, você chora arco-íris de felicidade ao ver o sorriso alheio, pelo menos eu choro, mesmo que escondidinho no canto do quarto. A vida está aí, pessoas necessitando de ajuda é o que não falta, são enchentes, incêndios, desastres naturais e aqueles causados pelo homem, só faltam os ajudantes.

Compaixão ao mesmo tempo é se livrar da grade que te separa do desconhecido, pois ter compaixão é ajudar o estranho, é ajudar aquela pessoa que você nunca mais irá ver na vida. Ter compaixão é ser humano.

Diário de um Estudante de Medicina

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Capítulo 3

O dia amanheceu, somente um retrato da lua cobria o céu, o sol ainda não havia aparecido, estava acordado, olhando para o horizonte, vendo as estrelas dando lugar para as nuvens mais aparentes na luz do dia, o clima estava quente, mesmo na manha recém-iniciada a luz do sol já fazia estragos na pele e nas glândulas sudoríparas de quem passava, pelas horas marcadas nos ponteiros do relógio haviam poucas pessoas nas ruas, muitos ainda estavam cheios de sonhos nas camas, as quais eu desejaria estar, por obsequio, queria estar na minha cama, mas o dever me chamava, falando assim pareço um super-herói, um chamariz da justiça, o oficial Gordon me enviava um sinal de luz no visor do meu celular, era um Bat-sinal, a cabine do Superman, o anel do Lanterna Verde. Não, na realidade era um whatsapp do meu amigo falando que eu estava atrasado, o meu relógio biológico me enganara mais uma vez, felizmente estava próximo do meu local de “repouso” de todas as manhãs, a faculdade, que pelas graças do destino era o local de encontro, ainda cheguei há tempo, com minha hipervelocidade consegui alcançar minha carona e fui ao som de Wesley Safadão até a minha unidade de resgate, onde minhas energias de super-herói seriam gastas, será que eu salvaria o dia, isso só no final da história.

Carro estacionado, pneu atolado, portas se abrindo, gente saindo, é um bom sinal, havíamos chegado ao local. Estava com pressa de ir embora, poucas palavras haviam saído da minha boca até chegar ali, o meu estado não estava bom, estava triste, queria ter ficado no meu quarto, dormindo, sonhando, chorando, tanto faz, queria estar sozinho, por que se nem o Pancadão do Bonde da Sobral me animara, o dia de chamados de socorro não seria bom. Aguardamos a boa vontade do cargueiro que nos levaria as visitas, o humor dele também não estava bom, deveria ser o sol, aquilo ali fritava ovo na cabeça de qualquer um, ainda bem que eu ainda tenho cabelo, a força dos raios solares estanca nas raízes dos meus cabelos rastafáris. O nosso transportador nos deixou nas designadas residências, durante o caminho quase caí umas três vezes, aquele sol não estava me fazendo bem, estava vendo buracos no chão, procurava em meu cantil um pouco de água que eu havia trazido da Fonte da Juventude, minhas forças estavam por um fio, meu cabelos de Sansão estavam quase cortados, aqueles raios UV estavam me matando, acho que essa era a minha kriptonita. Felizmente o nosso querido companheiro de viagem nos deu conhecimento que havíamos chegado nas zonas de visita, sim zonas, por que somos entregues um por um, ou melhor, grupo por grupo, chega na zona, deixa um na primeira casa, outro na segunda, eu e o Gabriel na última, sempre digo, os últimos serão os primeiros, de que eu não possuo conhecimento, mas serão.

Batemos palmas, e dona Dadá, com toda a simpatia de seguidores da Internet nos atendeu, mas aquela senhora era real, não existiam mouses, telas, teclados que nos separassem, e nos curtia e compartilhava sua vida como nenhum amigo virtual faria. O que mais me impressionava é que ela era de carne e osso, não era uma heroína de quadrinhos, mas sim uma Mulher Maravilha da vida real, era lindo o modo com que ela lidava com a família, como cuidava do marido, adoecido de diversas maneiras, de diabetes a esquizofrenia, sim, é uma lista muito grande, ainda quero conhecer esse sortudo que passou 40 anos de sua vida ao lado de uma mulher incrível, uma mulher que mora no mesmo bairro desde a sua fundação, sim, ela é idosa, mas tem a agilidade de quem tomou do meu cantil da Fonte da Juventude várias vezes, essa mulher me daria um banho em uma partida de Fifa no vídeo game, por que faz tempo que eu não jogo na vida real, acho que minha juntas e articulações não aguentariam muito tempo correndo atrás da bola.

Foi ótimo ter acordado esse dia para conhecer uma senhora muito simpática e de uma saúde impressionante, que me colocaria nos chinelos a qualquer estalar de dedos, eu já estava cansado de vê-la correndo pra lá e pra cá, no final da história o dia do super-herói que vos fala foi salvo pela donzela, sem likes no Face, sem coments no Tumblr, sem fotos no Insta, só uma conversa muito animada com uma verdadeira SuperWoman. E esse foi mais um dos dias de visitas que fizemos no nosso módulo de saúde, no caso de meu grupo de início de faculdade na Sobral, um bairro de Rio Branco. E um dos dias mais marcantes de todas essas visitas, precisamos ouvir os gritos do mundo para aprender, os livros são sim importantes, mas as experiências que você ganha ao decorrer da vida, ah, essas que te marcam.

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Os Pesadelos do Destino

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Estava caída ao chão, olhei para os lados, muitos desconhecidos a minha volta, fotos sendo tiradas, flashes de câmeras, a vergonha subia pelo meu corpo, não sabia o que fazer, me sentia um animal de circo, me sentia enjaulada, as pessoas ao meu redor eram as grades, os flashes eram os amendoins que jogam aos animais, olhei para o meu dorso, estava desnuda, nenhuma peça de roupa me separava do chão frio, ou dos olhares indiscretos dos passantes de plantão. Me senti com medo, me senti desesperada, estava indefesa, não compreendia o que se passava, não entendia quem estava ali comigo, ninguém me amparava, era somente eu e o mundo, eu estava sozinha naquele impetuoso renascer do tempo.

Levantei, sai correndo com medo do passado, meus olhos não conseguiam encontrar outros olhos, aumentei os meus passos, via os olhares repreendidos, tinha medo, tinha pavor, ainda não havia me encontrado, rezava para que aquilo fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo, pedia pra que qualquer momento um anjo viesse e me acordasse, mas sinto que anjos não existem, sinto que vivo sozinha, que tenho que me virar sem os trapos que carrego, tenho que me virar com meu corpo, exausto pelas eternas viradas das ampulhetas do tempo, com meu corpo desnudo e a vista desses frígidos olhares, desses pesados pensamentos que percorrem a cabeça de todos, a cabeça de quem me vê, de quem não se importa comigo, ou seja, de todos, de tudo, tenho receio de dizer o que ocorre comigo, não entendo essas parábolas a que minha vida são expostas, essas histórias, essas memórias que eu não me lembro, porque eu não me lembro disso, mas lembro que meus sonhos foram quebrados, estilhaçados, jogados ao vento e levados como grãos de areia ao decorrer do tempo. Somente tenho recordações desse passado distante, mas essas lembranças cortam minha alma como cacos de vidro cortam o papel, essas memórias não me levam ao futuro, essas memórias não me levam a nada, somente a choros, a tristeza, a desacordos com viver.

Às vezes me sinto melhor com não lembrar, às vezes penso que as imagens são apagadas, faço coisas, ando descalça com todas as brasas do mundo aos meus pés e não me recordo, não lembro o que eu fiz, os demônios da existência me conduziram, me marcaram com a cruz de não lembrar momentos que precisavam ser lembrados, me reservaram a inócua capacidade de lembrar de todo o meu escorrido passado e me privaram de lembrar o meu presente, o meu tão necessitado presente, esse que as amarras do destino destituíram do meu pensar. Possuo passado, não lembro de meu presente, desconheço meu futuro, quero esquecer o que já foi, lembrar o que vivo e imaginar o que vou viver. Mas isso, esse pequeno pedido não pertence ao meu ser, prevalece nos meus sonhos, mas não existe em meus pesadelos e são esses pesadelos que eu vivo, que eu quero acordar, mas continuo dormindo.

Compreendo que a vida não sorriu pra mim, que ela me jogou no mundo e me fez sofrer, tento entender o que fiz de errado pra merecer, olho para as palavras escritas, para as expressões ditas, atos consumados, memórias que são revividas, lembranças que são esquecidas. Olho para tudo, mas não me vem nada, nenhuma resposta para o que sinto, para o que vejo, para o que esqueço. Quem sabe não são os demônios, ou os anjos, me dando notícias de um mundo que eu não conheço, de sonhos que eu não irei viver, de pesadelos que eu devo esquecer.