Epifania da Morte

Tentava andar, os passos já não me pertenciam mais, estava perdendo as forças, as cores não apareciam mais nos meus olhos, tudo escurecia a minha volta. Sentia meu peito em chamas, o tempo passava mais lentamente, estava em um monólogo interno, somente via um vulto, uma sombra correndo fora de meu campo de vista, fugindo dos meus olhares convalescentes.

Aos poucos minha respiração ofegava, minha camisa se ensopava, minhas mãos e pernas perdiam as forças, meu corpo desfalecia ao ressoar dos segundos do relógio que havia perdido. Aquele mesmo relógio que era de meu pai, a última lembrança que tive dele em vida, a mesma que eu sentia desaparecendo.

Acordei em um lago, cheio de vitórias-regias, com aquele gramado cuidadosamente cortado, somente uma árvore, mas com todos os tipos e frutos existentes, tinha uma manga no topo que estava chamando minha atenção, mas pensei em pega-la depois, estava em posição fetal, me senti na placenta de minha mãe, não, eu não lembro da sensação, mas devia ser daquele jeito, um lugar pegajoso, úmido, mas aconchegante. Toquei em meu peito não havia mais o buraco da bala, nem o sangue que ali se encontrará antes, havia somente uma cicatriz, uma pequena cicatriz no lugar que a bala estava alojada.

Decidi olhar para frente, observar mais um pouco aquela paisagem, a quantidade de flores, azuis, amarelas, vermelhas, o formato diferenciado de cada uma, a fragrância luxuriante dos melhores perfumes de Paris, aquelas cores do lago, reluzindo as luzes do céu, o crepúsculo da noite, o azul do dia, tudo junto em um mesmo lugar, dia e noite que não haviam fim, dia e noite que se encontravam no meio do lago, naquele pequeno tempo que ali estive decidi por seu nome. Como havia somente eu, e como bom ser humano me apropriei daquele local, Lago da Luz.

Andei até ele, observei sua beleza plena, ouvi o barulho de suas águas batendo nas rochas, vi o refletir do arco-íris de flores sobre seu espelho d’agua, sonhei novamente com aquela manga no topo da árvore multifrutífera. Voltei meu olhar para o fim do lago, avistei uma mulher formosa em sua margem, afinal havia alguém naquele paraíso, seria a Brooke Shields da minha Lagoa Azul.

Fui andando até ela, passando por um mar de margaridas de todas as cores, me desviando das formações florosas, torci pra que ela não fosse uma miragem, depois de muito caminhar finalmente cheguei a margem. Ela havia sumido, onde estava aquela bela moça, bela eu não sei se era, somente esperava isso, quem sabe realmente fosse uma Lagoa Azul ou a ilha perdida de Lost.

Continuei a procura-la, olhei para dentro daquelas águas cristalinas do lago e ali estava ela, fiquei a admirar aquela beleza esplendorosa, a do lago é claro, o quão azul era aquela água. Decidi por entrar naquele lago, entrei com roupa e tudo, estava com muita preguiça de tirar a roupa, fui em direção aquela moça.

– Olá Bruno.

– Oi, como você sabe meu nome? Qual é o seu?

– Eu sei de tudo e todos que emergem por aquela árvore. Eu encaminho as pessoas que ali nascem para sua nova vida.

– Que vida? Eu estou morto? O que é aquela árvore?

– No momento você está a caminho do hospital. Eu vivo na consciência de todas as pessoas, sei a hora que uma daquelas frutas apodrece e venho aqui para busca-las, sou viciada em frutas, é um problema que tenho.

– Frutas?

– Sim, cada árvore existente nesse mundo representa uma família e cada fruta uma pessoa. Você só pode ver a árvore da sua família.

– Então eu morri?

– Ainda não. Sua fruta ainda não caiu, mas está madura. O apodrecimento das frutas é o que marca a morte.

– Então eu vou morrer?

– Isso eu não posso dizer, somente sou enviada quando as frutas caem, dou a notícia pra quem se perdeu da árvore da vida. O caminho até a morte pode ser rápido, mas também pode ser demorado.

– Podemos ir perto da minha fruta?

– Claro. Fomos andando pelo lago até a árvore, aquele caminho parecia interminável, cheio de dúvidas. Como uma árvore define a vida.

– Árvores são o símbolo da vida, uma família pode dar diversos frutos, e assim és uma árvore, com todos seus diferentes frutos marca a personalidade de cada pessoa, e quando esses frutos passam do ponto joga eles ao chão para adubar e fazer nascer novos frutos. O ciclo da vida é esse.

– Mas eu sou novo. Não era hora do meu fruto cair. Não posso aceitar ser desse jeito.

– Todos frutos têm sua hora de partir. E todos têm sua hora de nascer. O seu fruto ainda não caiu, uma pequena folha o segura.

Fiquei calado por mais algum tempo, aquele lago já não me parecia tão atrativo, estava indignado com aquela notícia, morrer, tão cedo. Estava começando a viver agora, e minha mãe, minha noiva.

– Se acalme, elas ficarão bem.

– Pare de ler meus pensamentos, isso não é legal.

– Desculpe, força do hábito.

– Como elas estão? E meu pai, ele passou por aqui também?

– No momento elas não estão muito bem.

– Não tem nenhuma televisão que eu possa ver elas? Sei lá, você disse que está dentro da minha consciência.

– Se acalme, uma coisa por vez. Sim, seu pai passou por aqui há 10 anos, a maior preocupação dele sempre foi você. Venha aqui, tem um lugar onde podemos vê-las.

Andamos até um telão, via olhos lacrimejando, minha mãe em cima do meu corpo, minha noiva ao fundo em prantos, os médicos desesperados tentando retira-las de perto de mim. Sonhava em acordar e abraça-las, dizer que aquilo era somente um pesadelo.

– Essa é a pior parte.

– Por que não as ouço?

– Nesse estágio sua audição está comprometida. O único sentido que consegue usar é a visão.

– Tem mais alguma coisa que nós possamos fazer aqui?

– Isso não é nenhum fliperama ok!

– Sim, eu estou morrendo, aqui é minha consciência, tenho direito a alguma coisa.

– Isso é justo. Tudo bem, escolha alguma coisa.

– Quero um Milkshake de ovomaltine, faz tempo que não tomo.

– Você sabe que pode escolher qualquer coisa material?

– Sei. Mas como estou morrendo tenho direito de tomar um último Milkshake não?

– Tudo bem, se acalme.

E com esse tudo bem, e um susto bem tomado um copo de milkshake se materializou na minha frente, que bruxaria era aquela. E a mulher não havia feito nenhum esforço.

– Me fale mais sobre essa árvore.

– Você realmente se interessou. Um dos poucos que encontrei que perguntam sobre isso, esse local sempre vira um Muro das Lamentações.

– É que quero me distrair um pouco.

A imagem de minha mãe chorando sobre meu corpo havia me chocado, queria pensar em outras coisas, como nos momentos bons que havíamos passado, os dias bebendo o Milkshake que só ela sabia fazer. Meu pedido foi por ela, pra tentar sentir um pouco dela naquela nossa tão especial bebida, aquele doce gosto de comida de mãe.

– Cada pessoa nova que nasce em sua família brota um novo fruto na árvore, e cada tipo diferente de fruto representa a personalidade de cada pessoa. Os que ainda não nasceram para o mundo são as flores que ainda não brotaram, como essa aqui. A união de duas pessoas faz com que cresçam novos galhos que um dia irão se unir, esses galhos vão formar ramos em outras árvores. E assim por diante. Venha até aqui. Aquela árvore gigantesca revelava a vida, revelava os galhos que se uniam as outras árvores.

– Não tinha noção que minha família era tão grande.

– Ela é. Olhe ali, naquele pequeno galho, o mais novo.

Bem na ponta daquele galho se depositavam duas frutas, uma pequena folha segurava uma maçã e essa folha surgia da graviola que estava ao lado. E daquela graviola emergia uma pequena flor, quase que imperceptível pelo seu tamanho diminuto.

– Esse aqui já está quase morrendo.

– Esse é você.

– Eu? Por que uma Maçã? E essa Graviola?

– Sim Bruno, essa Maçã é você. Assim como ela, você é romântico, você tem como lema o amor verdadeiro e somente ele. E a Graviola é sua noiva e sim, é ela que ainda te segura com um fio de vida.

– Esse pequeno fruto, é um filho?

– Muito perpicaz de sua parte, é um menino, parabéns papai.

– Acorda, Acorda.

Um sopro de vida percorreu meu peito, a respiração ofegante apareceu, meus olhos enxergavam além daquele lago. Vi duas imagens a minha frente, minha mãe e minha noiva, onde estava? Tudo branco, sentia minha roupa ensopada, ouvia choros e gritos.

– Ele voltou, ele voltou. Bradavam os médicos.

– Leve-o para a cirurgia. Corra com essa maca.